Os erros mais comuns no registro de despesas em ONGs são: não seguir a ITG 2002 (R1), misturar recursos de projetos distintos, ausência de conciliação bancária, comprovantes fiscais inválidos e categorização imprecisa das saídas. Cada um desses pontos pode resultar em reprovação de contas, obrigação de devolver verbas públicas e perda de credibilidade com doadores.
Quem trabalha no terceiro setor conhece bem esse aperto: fazer o dinheiro durar e, ao mesmo tempo, provar para financiadores, doadores e órgãos públicos que cada centavo foi usado da forma certa. Quando o registro de despesas tem falhas, esse equilíbrio desmorona e o projeto que tanto custou para construir pode ser comprometido por um erro que nem parecia tão grave.
O Terceiro Setor responde por 8% do PIB brasileiro e emprega cerca de 1,7 milhão de trabalhadores, além de contar com 20 milhões de voluntários, segundo o IBGP (Instituto Brasileiro de Gestão Pública). Mesmo assim, gestores de entidades têm, em geral, dificuldades técnicas de gestão, reconhecimento que vem do próprio Conselho Federal de Contabilidade (CFC).
A boa notícia é que a maioria desses erros é evitável. E você não precisa ser contador para começar a corrigir agora mesmo.
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💡 O terceiro setor no Brasil em números Em 2016, a Associação Nacional das ONGs (ABONG) contabilizou mais de 350 mil entidades sem fins lucrativos ativas no Brasil. Mesmo com esse tamanho, gestores do setor reconhecem dificuldades técnicas em gestão e o controle financeiro é uma das áreas mais sensíveis. |
Você já ouviu falar na ITG 2002? Se a resposta for não — ou um 'mais ou menos' — você não está sozinho. Essa é a norma que mais pega os gestores de surpresa.
Quando alguém doa seu tempo para a sua ONG — seja o advogado que orienta pro bono, a psicóloga que atende os beneficiários, ou o próprio presidente da diretoria — esse trabalho tem valor. E pela ITG 2002 (R1), esse valor precisa estar registrado nas demonstrações contábeis.
Como funciona na prática: o contador registra simultaneamente uma despesa (o custo desse trabalho, pelo valor que o mercado pagaria por ele) e uma receita de gratuidade. Não tem movimentação financeira real, o dinheiro não sai nem entra, mas o registro existe para mostrar o real tamanho do impacto da organização.
Por que isso importa? Porque quando a ONG omite o trabalho voluntário, seu balanço parece menor do que realmente é. Financiadores e parceiros que analisam as demonstrações contábeis podem subestimar a capacidade e o alcance da entidade.
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✅ Como registrar o trabalho voluntário Débito em 'Trabalho Voluntário — Custos e Despesas Operacionais' e Crédito em 'Trabalho Voluntário — Receitas Operacionais com Restrição'. O valor deve ser baseado no salário de mercado para funções equivalentes. |
O computador comprado há quatro anos, o carro da ONG, as cadeiras do escritório todos esses bens perdem valor com o tempo. Esse processo se chama depreciação, e ele precisa estar refletido nas demonstrações contábeis da entidade.
Muitas ONGs simplesmente ignoram esse ponto. O resultado é um patrimônio contábil irreal, como se os bens nunca se desgastassem. Além de distorcer as informações financeiras, isso pode gerar questionamentos em auditorias e na prestação de contas.
Esse erro tem um jeito bem comum de acontecer. A ONG recebe uma verba do projeto A em março. O projeto B tem um pagamento urgente em abril, mas o repasse ainda não chegou. Alguém toma a decisão de 'emprestar' o dinheiro do projeto A para cobrir o projeto B. 'É só até o repasse chegar', pensam.
O problema é que esse tipo de compensação não existe na legislação. E quando a prestação de contas chega, o buraco aparece.
O Marco Regulatório das Organizações da Sociedade Civil (MROSC) — instituído pela Lei 13.019/2014 — é bem direto nesse ponto: toda despesa precisa ter nexo de causalidade com o projeto ao qual os recursos foram destinados. O Plano de Trabalho aprovado tem força de lei. Qualquer gasto fora das rubricas definidas pode ser glosado.
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⚠️ O que acontece quando as contas são reprovadas? A OSC condenada ao ressarcimento precisa devolver todos os valores glosados com correção monetária. Quando é comprovado dolo, incidem ainda juros de mora sobre o débito (MROSC, art. 71 § 4º, II). Em casos mais graves, a administração pública abre um processo de Tomada de Contas Especial (TCE) para apuração dos fatos e identificação dos responsáveis. |
Como se proteger:
Aqui vai uma pergunta simples: você consegue afirmar agora mesmo, sem abrir uma planilha, que o saldo registrado internamente bate com o extrato bancário da ONG?
Se a resposta for 'preciso verificar', você já tem um ponto de atenção. A conciliação bancária — esse processo de comparar o que está no sistema interno com o que está no extrato do banco — é uma das tarefas mais ignoradas e uma das mais importantes.
Sem ela, erros de lançamento passam despercebidos. Taxas bancárias indevidas saem sem que ninguém perceba. Cheques que não foram compensados ficam 'flutuando' nos registros como se tivessem sido pagos. Com o tempo, essas inconsistências se acumulam e transformam qualquer prestação de contas em um exercício de arqueologia financeira.
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💡 Quanto tempo leva uma conciliação bancária semanal? Para uma ONG com movimentação moderada (30 a 80 transações por semana), a conciliação bancária semanal costuma levar entre 30 e 60 minutos. O tempo investido agora economiza horas — às vezes dias — na hora de fechar o relatório financeiro ou responder a uma auditoria. |
Além da conciliação, vale atentar para um ponto que o MROSC deixa claro: até tarifas bancárias cobradas sobre a conta de convênio podem ser glosadas e precisar de ressarcimento aos cofres públicos. Ou seja, qualquer movimentação — por menor que seja — precisa estar devidamente registrada e justificada.
Uma nota fiscal rasgada. Um recibo simples sem identificação do prestador. Uma NF-e emitida no CPF do coordenador do projeto em vez do CNPJ da entidade. Esses são exemplos reais do que chega nas pastas de prestação de contas de muitas ONGs.
O problema é que, na hora da análise, esses documentos são simplesmente rejeitados. E quando um gasto não tem comprovante válido, ele vira uma glosa, ou seja, um valor que a organização vai precisar devolver.
Para que uma despesa seja aceita na prestação de contas, o comprovante fiscal precisa seguir algumas regras básicas:
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⚠️ Atenção à transição fiscal de 2026 A partir de 1º de janeiro de 2026, documentos fiscais eletrônicos passaram a incluir novos campos para destacar a CBS e o IBS, tributos criados pela Reforma Tributária. Fique atento às atualizações do seu sistema de emissão de notas e oriente os fornecedores da ONG sobre as novas exigências. |
Uma dica prática: antes de pagar qualquer fornecedor, peça a nota fiscal antecipadamente e verifique se todos os dados estão corretos. É muito mais fácil corrigir antes do pagamento do que depois.
'Outros gastos'. 'Despesas diversas'. 'Materiais'. Essas categorias aparecem nas planilhas de centenas de ONGs e elas não dizem praticamente nada sobre para onde o dinheiro foi.
Quando chega o momento de gerar um relatório para o financiador ou de responder a uma pergunta da diretoria 'quanto gastamos com pessoal no projeto X no segundo semestre?' a busca pela resposta se torna um trabalho de garimpagem.
Uma categorização bem feita permite, entre outras coisas:
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✅ Categorias recomendadas para despesas em ONGs Recursos Humanos (salários, encargos, benefícios, pró-labore) | Infraestrutura (aluguel, energia, telefone, internet) | Projetos — segregado por projeto ou convênio | Administrativo (material de escritório, contabilidade, jurídico) | Comunicação (marketing, eventos, impressão) | Capacitação (cursos, formações da equipe) | Tecnologia (softwares, equipamentos) |
A cena é familiar: a coordenadora compra material de escritório em dinheiro numa quinta-feira. Guarda o cupom fiscal na bolsa. Na segunda-feira seguinte, quando vai lançar no sistema, não encontra mais o cupom. Registra de memória, aproximando o valor. Duas semanas depois, o saldo não fecha.
Manter um controle financeiro adequado significa saber, a qualquer momento, para onde o dinheiro da entidade está indo. Um controle inadequado leva a despesas que passam despercebidas e receitas que não são cobradas no prazo. Com o tempo, esse acúmulo de pequenos deslizes cria um abismo entre o que está registrado e o que realmente aconteceu.
O hábito de registrar a despesa no mesmo dia em que ela acontece é simples, mas faz uma diferença enorme. Algumas formas de tornar isso mais fácil:
Imagine que o repasse de um convênio atrasa dois meses. Ou que um doador importante cancela o compromisso de última hora. Ou que uma reforma emergencial no espaço da ONG come boa parte do orçamento operacional.
Sem uma reserva financeira, qualquer um desses imprevistos pode paralisar os projetos, atrasar salários e colocar em risco o que a organização levou anos para construir. E o problema não é só não ter o dinheiro é não ter documentado como esse dinheiro seria usado.
O fundo de reserva precisa estar escrito. Nas políticas financeiras da entidade, com definição do percentual mínimo a ser mantido (a referência comum é entre 3 e 6 meses de despesas operacionais), dos critérios para uso e do processo de recomposição após o uso. Sem essa documentação, o fundo não tem respaldo formal e pode acabar sendo usado de forma irregular.
Você não precisa de um software caro nem de uma equipe financeira robusta para começar. Estes 8 passos podem ser implementados agora, com o que você já tem.
A ITG 2002 (R1), publicada pelo Conselho Federal de Contabilidade em setembro de 2015, é a norma que regula a contabilidade do terceiro setor no Brasil. Ela estabelece, entre outros pontos, o tratamento contábil de subvenções, trabalho voluntário e depreciação de ativos.
Sim. Pela ITG 2002 (R1), o trabalho voluntário — incluindo o de membros da diretoria — deve ser reconhecido pelo valor justo da prestação do serviço. O lançamento é feito simultaneamente como despesa operacional e receita de gratuidade, sem movimentação financeira real, mas com obrigatoriedade contábil.
O recomendado é semanalmente para entidades com movimentação ativa, e no mínimo mensalmente para entidades com menor volume de transações. O objetivo é identificar divergências entre os registros internos e o extrato bancário antes que acumulem e dificultem a prestação de contas.
Não existe uma resposta única, depende do tamanho e do volume de projetos da entidade. Para entidades menores, planilhas no Google Sheets com controle padronizado já são um avanço. Para organizações com múltiplos convênios, sistemas específicos para o terceiro setor oferecem categorização personalizável e relatórios automáticos. O mais importante é que o sistema escolhido permita segregar despesas por projeto e gerar relatórios auditáveis.
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